Você aperta o play esperando aquela ficção científica pesada e contemplativa de sempre. Poucos minutos depois, está rindo. Essa é a primeira surpresa de The Ghost in the Shell, o novo anime que estreou no Prime Video.
Dá pra sentir a mão da Science SARU, o mesmo estúdio de Dandadan, em cada quadro: cores vibrantes, uma animação dinâmica e uma Motoko Kusanagi cheia de expressividade que rouba a cena. Pela primeira vez em quase quarenta anos, é o mangá original que dá as cartas, e o resultado é uma obra vibrante de um jeito que a série nunca havia sido.
A grande virada do episódio é a própria protagonista. Esta Motoko Kusanagi está longe da ciborgue fria e distante das versões anteriores. Aqui, ela é uma força da natureza, com expressões exageradas e uma personalidade que muda entre a assassina implacável e a figura debochada em questão de segundos.
Na primeira oportunidade, chama Aramaki de “cara de macaco” e, quando um ministro corrupto ameaça o grupo, simplesmente o faz socar o próprio rosto.
Essa cena absurda e engraçada reflete a genialidade da série. Essa expressividade não está ali apenas para fazer graça. Cada careta serve para desarmar a tensão e, ao mesmo tempo, mostrar quem realmente está no controle.
Visualmente, o episódio faz uma mágica difícil: parece um anime dos anos 1990, mas produzido hoje, com traço nítido e cores vibrantes. A Science SARU aposta no movimento fluido e na expressão, priorizando a estética ao invés de um detalhe fotorrealista. O contraste entre pele e maquinário nos planos do corpo ciborgue é de tirar o fôlego.
Vale destacar que a produção decidiu não usar nenhuma inteligência artificial generativa, conforme declaração do diretor Mokochan, num momento em que o setor discute o avanço do uso de IA na animação. Numa história sobre o que sobra do humano quando quase tudo já virou máquina, a escolha de manter o desenho feito à mão soa como um manifesto.
Se o tom leve fosse apenas piada, o anime seria esquecível. O trunfo do episódio é usar a comédia como isca para um soco no estômago. Um exemplo é o centro de “aprendizado” que a trama apresenta: crianças obrigadas a recitar uma canção de propaganda, alimentadas apenas com mingau de arroz, uma delas punida por “não ter comido” depois que outra roubou sua ração. É perturbador e chega logo após uma sequência de cenas cômicas.
Essa mudança de tom é o coração da obra. A leveza não alivia o horror; na verdade, a torna mais impactante, pois nunca sabemos para que lado a próxima cena vai girar. É nesse mesmo bloco que o episódio explica, de forma simples, o conceito de ghost: a fagulha de humanidade que resiste mesmo quando o corpo já foi quase todo substituído por tecnologia.
Quando a Major diz a uma das crianças para trilhar o próprio caminho, o roteiro entrega em uma frase tudo o que o cyberpunk sempre quis questionar: o que significa existir num lugar assim?
Como episódio de abertura, esta estreia é estilosa, confiante e cheia de personalidade, reinventando o tom da franquia sem trair sua essência. A Motoko debochada é um sopro de ar fresco, a direção de arte é das melhores da temporada e a mistura de comédia e horror funciona melhor do que se poderia esperar.
Entretanto, é apenas o primeiro de dez episódios. Fica a dúvida sobre se o ritmo acelerado e a densidade vão encontrar equilíbrio ao longo da temporada, e se o malabarismo de tons se sustenta em uma narrativa mais longa. O veredito do episódio é positivo, mas o da temporada continua em aberto. Contudo, se depender dessa estreia, a próxima terça-feira não chega rápido o bastante.




