Um novo tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil reacendeu o alerta do governo brasileiro sobre a relação bilateral com Washington. O discurso sobre a soberania nacional, já utilizado em 2025 durante a primeira ofensiva comercial de Donald Trump, voltou a ser mencionado.
Na terça-feira (14), véspera da confirmação da alíquota de 25% para uma série de produtos brasileiros, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que era provável uma retomada do processo da Lei de Reciprocidade caso o tarifaço se concretizasse.
Na quarta-feira (15), Durigan reforçou que “o país vai se proteger, vai se fazer respeitar”. Contudo, o discurso foi ajustado, e o ministro declarou que “não cabe falar em retaliação. Retaliação é uma palavra que está fora do nosso escopo e do nosso trabalho”, ressaltou na sexta-feira (17).
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva solicitou estudos de impacto e adotou uma postura cautelosa na aplicação da Lei da Reciprocidade contra os Estados Unidos. Essa estratégia visa evitar aumentos ainda maiores nas tarifas e a elevação dos preços ao consumidor brasileiro. “Vamos com cautela”, enfatizou Durigan.
Mercados e especialistas monitoraram os movimentos recentes com apreensão, especialmente em relação à resposta do governo brasileiro. O economista José Niemeyer, professor do Ibmec, destacou que os EUA são muito mais significativos para o Brasil do que o contrário. Nos últimos 15 anos, a relação bilateral resultou em um superávit comercial de US$ 424,5 bilhões para os Estados Unidos, conforme informações do governo brasileiro.
A postura do Planalto, segundo Niemeyer, é prejudicial para a diplomacia entre os dois países. “O Brasil precisa ter uma conversa próxima com a Casa Branca, independentemente das administrações”, defendeu.
Roberto Azêvedo, ex-diretor-geral da OMC, expressou ceticismo quanto à reversão das tarifas, afirmando que “o comportamento dos dois lados não irá mudar”. Azêvedo argumentou que o Brasil não tem demonstrado criatividade nas negociações, preferindo uma abordagem de pedido e oferta, que os Estados Unidos não esperam.
O ex-diretor ainda alertou que uma retaliação do Brasil poderia resultar em consequências severas, como uma maior sobretaxação por parte do governo norte-americano. A nova taxa de 25%, que será implementada na quarta-feira (22), deve impactar US$ 11 bilhões em exportações, conforme levantamento da CNI.
A Confederação Nacional da Indústria manifestou preocupação com a nova tarifa, enquanto a Abimci pediu uma negociação mais efetiva do governo brasileiro para preservar a indústria nacional, os postos de trabalho e as relações comerciais com os Estados Unidos. “Diante da relevância econômica e social dessa pauta, seria necessária uma atuação mais efetiva do governo brasileiro, dissociada dos componentes políticos e focada na negociação diplomática”, afirmou a associação.
Com a aplicação da nova tarifa, o Brasil se tornará o segundo país mais tarifado pelos Estados Unidos, atrás apenas da China, com taxas médias que superam 18%, segundo o GTA. Essa medida pode reduzir o fluxo comercial em cerca de US$ 1 bilhão e causar um impacto de aproximadamente 0,03% no PIB brasileiro, conforme análise de Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos.
