Doenças cardiovasculares matam mais quando somadas a fatores sociais. Mulheres negras e indígenas são as mais vulneráveis, segundo estudos nacionais e internacionais.
Os problemas sociais e estruturais gerados pelo racismo e pela desigualdade de classes e de gênero são fatores que podem agravar a incidência de doenças cardiovasculares, como infarto, arritmia e acidentes vasculares cerebrais (AVCs), especialmente entre mulheres negras e indígenas. Essa correlação tem sido comprovada em diversos estudos realizados pela comunidade científica nacional e internacional.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e a American Heart Association (AHA) estimam que essas doenças provocaram aproximadamente 30,4% de todas as mortes em mulheres no mundo ao longo de 2021.
O Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA Brasil), realizado pela Fundação Oswaldo Cruz em conjunto com seis universidades brasileiras, apontou em 2023 que cerca de 10% das mulheres pretas conviviam com seis ou mais doenças crônicas no início do estudo, em 2008. Além disso, 35% delas conviviam com obesidade e outros 40% com transtornos mentais comuns, como ansiedade e depressão.
“A literatura mundial tem enfatizado este tema, considerando como determinantes psicológicos e sociais, algumas vezes denominados como expossoma, aqui definido como a totalidade da exposição a que indivíduos estão expostos ao longo da vida e como essas exposições afetam a saúde”, afirma a cardiologista Celi Marques Santos, professora do curso de Medicina da Universidade Tiradentes (Unit).
Celi Marques explica que já existem diferenças entre homens e mulheres do ponto de vista cardiovascular, devido a características específicas de cada gênero em aspectos como anatomia, fisiologia e biologia vascular. Essas características, além de fatores de risco tradicionais, como má alimentação e falta de atividade física, podem potencializar o surgimento das doenças quando se somam aos chamados “determinantes psicossociais”, como depressão, ansiedade, abuso sexual e violência.
“O estresse crônico e outros fatores desencadeiam inflamação sistêmica e, consequentemente, doenças cardiovasculares da mulher. O racismo estrutural e a discriminação racial são causas de disparidade em saúde cardiovascular da mulher”, explica Celi Marques.
O ELSA Brasil de 2003 apontou que 6% dos pardos e 32% dos pretos acompanhados relataram experiências de discriminação racial ao longo da vida, o que está relacionado a piores resultados de saúde cardiovascular. “Estudos demonstram que vivenciar essas experiências foi associado à pior função renal e ganho de peso mais acelerado”, acrescenta a professora, relacionando uma maior chance de hipertensão e diabetes entre pessoas que têm baixa escolaridade ou vivem em áreas economicamente segregadas.
“É um fato que a saúde cardiovascular da mulher não deve ser focada apenas no modelo biomédico e nos fatores de risco cardiovasculares tradicionais, mas também deve ser vista sob a perspectiva de gênero, raça, território e desigualdade social”, argumenta a cardiologista.
Com base neste diagnóstico, especialistas da área de saúde têm defendido um novo olhar e uma nova abordagem para a prevenção das doenças cardiovasculares. Para além dos exames médicos periódicos, exercícios físicos e cuidados com a alimentação, é necessária a implementação de políticas públicas que atuem de maneira ampla e coordenada para reverter esses problemas socioestruturais.
Celi Marques defende que a correlação entre racismo, gênero e doenças cardíacas deve ser estudada e debatida para provocar mudanças concretas na sociedade. “Discutir desigualdade melhora ciência e assistência, tornando a medicina mais justa e efetiva”, conclui.
