Operação Compliance Zero mira senador petista e expõe ligações do partido com o Banco Master. Reeleições de Lula e Wagner entram na mira do escândalo financeiro.
A nova fase da operação Compliance Zero, que cumpriu mandados de busca e apreensão nesta quinta-feira (18) contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo federal no Senado, coloca o PT no centro do escândalo do Banco Master, às vésperas do início da campanha eleitoral.
Além de prejudicar o projeto de reeleição de Jaques Wagner, as relações com o empresário Daniel Vorcaro têm o potencial de impactar as pré-campanhas petistas na Bahia e até mesmo a pré-candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca o quarto mandato presidencial.
A nona fase da operação investiga os desdobramentos do suposto braço político do banqueiro, deslocando o foco eleitoral do escândalo para a esquerda. Isso ocorre após o vazamento do áudio do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pedindo financiamento ao filme “Dark Horse”. Anteriormente, o senador e ex-ministro do governo Bolsonaro, Ciro Nogueira (PP-PI), também foi alvo da operação.
Jaques Wagner é uma peça-chave para a continuidade da gestão petista na Bahia. Ex-governador baiano, ele é um aliado próximo de Lula e considerado fundamental para a manutenção do governo petista no estado, que administra há 20 anos desde a vitória de Wagner em 2006.
O governador incumbente, Jerônimo Rodrigues (PT-BA), disputará a reeleição estadual com apoio de Lula e dos ex-governadores petistas Jaques Wagner e Rui Costa. A dupla estará na chapa de Rodrigues na corrida eleitoral pelas duas cadeiras em disputa no Senado. Enquanto Wagner é pré-candidato à reeleição, Rui Costa deixou a Casa Civil no início de abril para se dedicar à campanha.
Segundo a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, Wagner teria recebido diversos pagamentos, negociado um apartamento em Salvador e voado em jatinhos de Vorcaro. No Congresso Nacional, o parlamentar teria atuado em favor do banco com a chamada “Emenda Master”, que aumentaria os limites de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), apresentada por Ciro Nogueira.
O secretário do Meio Ambiente do Estado da Bahia, Eduardo Sodré, enteado de Jaques Wagner, também foi alvo da nona fase da operação. As investigações apontam que ele seria responsável pelas cobranças ao empresário Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master.
Em Salvador, a empresa de Lima, a casa de Wagner e a sede do PT foram alvos da operação. A relação entre o empresário e o político começou durante a privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), que operava a rede de supermercados Cesta do Povo.
A oposição acusa o PT baiano de ser responsável pelo embrião do esquema do Banco Master, que se estendeu pelo país, envolvendo o mercado financeiro e os Três Poderes em Brasília.
O cientista político Eduardo Grin, da FGV São Paulo, avalia que as pré-candidaturas de Wagner e Rui Costa serão mais impactadas do que a de Jerônimo Rodrigues. “Ele ainda pode fazer as entregas [no governo], mesmo sendo muito próximos dos ex-governadores”, analisa.
Grin pondera que qualquer relação com Daniel Vorcaro pode ser considerada uma “criptonita”, enfraquecendo as pré-candidaturas de diferentes bandeiras partidárias. “Toda denúncia que envolve algum político no país que tenha o carimbo de ter tido relação com Vorcaro e Banco Master vai causar prejuízo”, acrescenta.
A investigação da PF também apura a relação com ACM Neto (União-BA), principal opositor à reeleição de Rodrigues na Bahia. Segundo sondagem do Paraná Pesquisas, ACM Neto aparece à frente com 47,8% das intenções de voto, enquanto Jerônimo Rodrigues registra 38,7%.
A defesa de Augusto Lima afirmou que as ações realizadas pela PF eram “desnecessárias”, já que ele está à disposição das autoridades. “As medidas contribuirão para demonstrar que os fatos apurados nesta fase da investigação são rigorosamente lícitos”, completa a defesa.
Por fim, Jaques Wagner nega qualquer relação com Vorcaro e afirma que Lula expressou “confiança” em sua inocência.
