O Irã deu início às cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que faleceu há quatro meses em um ataque dos Estados Unidos e de Israel. As procissões, que abrangem cinco cidades e também incluem homenagens no Iraque, começaram hoje, 4 de julho, data que coincide com o Dia da Independência Americana.
Segundo o correspondente Américo Martins, o evento vai muito além de um ritual religioso.
“O Irã quer mostrar ao mundo e à sua região, o Oriente Médio, em especial aos Estados Unidos e ao governo de Israel, que o país não perdeu a guerra, embora tenha perdido, claro, o seu líder supremo”
, afirmou.
A estratégia do governo iraniano é transformar Ali Khamenei em um dos maiores mártires do país, aproveitando a forte tradição do martírio no ramo xiita do islamismo. A narrativa oficial sustenta que, embora Khamenei tenha morrido, o regime permanece no poder.
“A ditadura do Irã continua dando as cartas no país”
, destacou Martins.
O líder supremo foi sucedido por seu filho, Mojtaba Khamenei, em uma escolha que visa demonstrar continuidade. Para o analista Sandro Teixeira Moita, o funeral representa um ato fundacional de um novo momento da República Islâmica.
“O regime se despede do último arquiteto da revolução. Vem uma nova geração”
, disse.
A cerimônia também contou com a presença de representantes de diversos países, como China, Rússia, Índia, Arábia Saudita, Indonésia e Malásia, além de delegações do Afeganistão, que incluem tanto elementos da Aliança do Norte quanto do Talibã. Lourival Sant’Anna destacou a presença de Medvedev, representando a Rússia, e explicou os interesses estratégicos que unem cada nação ao Irã. No caso da Índia, por exemplo, a dependência do porto iraniano de Shahabad é vital para o escoamento de produtos indianos em direção ao Afeganistão e à Ásia Central.
Apesar da tentativa de projetar unidade, a coesão entre as lideranças iranianas parece distante. Figuras como Mohamed Bagher Ghalibaf e Abbas Araqchi não demonstraram alinhamento suficiente para transmitir a imagem de unidade desejada pelo regime. Além disso, a Guarda Revolucionária mantém posições próprias dentro do cenário político interno.
Um dos momentos mais aguardados das cerimônias é a possível aparição pública de Mojtaba Khamenei, que ainda não se manifestou desde que assumiu o poder. Lourival Sant’Anna observou que a ausência pode ser vista sob a luz da mística xiita, conferindo um apelo simbólico à invisibilidade de um líder. No entanto, sua não aparição também levanta questões sobre quem realmente comanda o país.
Além disso, a coincidência do início das procissões com o Dia da Independência dos Estados Unidos não passou despercebida e pode ser vista por Israel como uma provocação. O analista Sandro Teixeira Moita afirmou que o funeral pode ser interpretado dessa forma, especialmente após declarações do ministro da Defesa israelense sobre uma suposta operação que demonstraria a capacidade de Israel de agir contra o Irã de forma independente dos Estados Unidos.
Por fim, Lourival Sant’Anna alertou que figuras de alto escalão que estavam ausentes publicamente desde 28 de fevereiro devem comparecer às cerimônias, aumentando o risco de ataques.
“Israel tem por hábito bombardear funerais”
, afirmou, citando sua experiência no Líbano durante a guerra de 2006.
No entanto, Sant’Anna ressaltou que os Estados Unidos enviaram um recado claro a Israel para que não realize qualquer ataque durante o funeral, pois isso contrariaria os interesses americanos. Segundo ele, Trump está negociando intensamente com os iranianos e deseja sair do conflito “da forma mais honrosa possível”.
