Depois de décadas convivendo com o peso de Turn On the Bright Lights, a banda oferece uma resposta elegante e confiante. Lançado nesta sexta, o novo álbum mostra o Interpol em seu melhor estado criativo.
Existe uma armadilha esperando toda banda que teve um disco de estreia gigantesco: passar a carreira tentando reescrevê-lo ou fugir dele com tanta força que o resultado soa apenas defensivo. O Interpol conviveu com essa sombra desde 2002, quando Turn On the Bright Lights definiu o som de uma geração. Na sequência, Antics (2004) e Our Love to Admire (2007) também foram aclamados e se tornaram referências do grupo.
Vinte e quatro anos depois, esse problema parecia se fazer mais presente na trajetória da banda, mas This Mirror Weighs a Ton surge como uma resposta elegante. Lançado nesta sexta-feira (28) pela Partisan Records, o oitavo álbum de estúdio da banda é o primeiro de inéditas desde The Other Side of Make-Believe, de 2022, e também o primeiro gravado em Nova York em mais de uma década.
A produção ficou a cargo de Andrew Wyatt, do Miike Snow, com mixagem de Dave Fridmann, dupla que ajuda a explicar boa parte da amplitude sonora do disco. Outra novidade importante aparece nos créditos: Brad Truax, baixista de turnê do grupo desde a saída de Carlos Dengler, finalmente participa do processo de composição e é apontado como um dos pontos altos do trabalho.
Não é que Marauder (2018) e The Other Side of Make-Believe tenham sido ruins — ambos têm ótimos momentos. O segundo, em especial, trouxe um Interpol mais suave e introspectivo, um aspecto atraente para uma banda que aposta fortemente na melancolia como fonte de inspiração. Ainda assim, o novo álbum parece se reconectar mais com as raízes ao mesmo tempo em que expande sonoridades, sem que uma coisa atrapalhe a outra.
O exemplo mais claro vem já na segunda faixa, “See Out Loud”, que parece ter saído direto de Turn On the Bright Lights ou Antics, com destaque para os vocais de Daniel Kessler no segundo verso. Kessler aparece em plena forma durante o disco, oferecendo algumas de suas linhas mais criativas, especialmente na interação com o baixo de Truax em “Darling Thoughts”, faixa que remete bastante aos primórdios do quarteto.
Do outro lado, a busca por expansão sonora se materializa em “Wake Up”, que aposta em bongôs e percussão incomum para quem espera apenas o som tradicional do Interpol. É a faixa em que Sam Fogarino brilha, enquanto Kessler mantém protagonismo em uma música que soa diferente e, ainda assim, perfeitamente integrada à estética do álbum. Essa contradição sintetiza o que define This Mirror Weighs a Ton.
Outra conquista do disco é a forma de trabalhar a melancolia com um viés contemporâneo. “Iron City” traduz a sensação de se perder na selva de pedra e conversa com temas como inteligência artificial, mantendo uma atmosfera futurista. Já “Enemy” coloca Kessler ao piano e caminha por territórios que lembram Nick Cave e Radiohead, mas com uma perspectiva mais pessoal, aproximando-se também de sonoridades de colegas de cena como The National.
Em resumo, This Mirror Weighs a Ton traz o Interpol em sua melhor forma dos últimos 20 anos. O álbum evita recriar o passado de forma óbvia e, ao mesmo tempo, recusa apagar suas origens, encontrando uma sintonia fina entre resgate e inovação. A constância do trabalho faz com que ele funcione melhor como disco completo, e as faixas divulgadas antes do lançamento ganham novo sentido dentro do contexto integral.
★★★★★ (5/5)
