Você já sentiu que o Instagram está drenando sua energia ou te deixando irritado? Se o seu feed “Explorar” está repleto de notícias negativas, padrões de vida irreais ou fofocas que não agregam, talvez seja hora de fazer um “detox digital” na sua rede social.
Embora personalizar o feed seja uma tarefa desafiadora — já que a cada vez que você abre o aplicativo, ele volta para o feed padrão algorítmico —, é também um exercício de empoderamento digital. Apesar das dificuldades, o Instagram oferece ferramentas que devolvem ao usuário o controle sobre o que aparece em sua timeline. É possível redefinir as recomendações do algoritmo, ativar o feed cronológico ou marcar conteúdos como indesejados.
No entanto, a maioria das pessoas não utiliza essas opções e continua rolando um feed montado por uma inteligência artificial que nunca perguntou o que elas realmente querem ver. O algoritmo apenas observa o que mantém o usuário conectado por mais tempo. Esse paradoxo é frustrante: existem ferramentas e tutoriais disponíveis, mas a inércia parece prevalecer. No fundo, as grandes empresas de tecnologia não desejam que você se torne um “curador” do seu próprio tempo; elas querem que você seja um consumidor passivo, sendo levado para um destino que não escolheu.
A psicóloga Adriana de Araújo, mestre em Psicologia e autora de 17 livros, explicou que essa distância entre saber e agir tem uma explicação: “as pessoas não funcionam apenas na lógica”.
Para ela, pedir que alguém controle o próprio feed é “como pedir que a pessoa mantenha uma dieta rigorosa morando dentro de um restaurante, uma padaria ou um verdadeiro paraíso de guloseimas”. A dificuldade, segundo a psicóloga, “não é falta de vontade: o cenário foi pensado para vencer o controle humano”.
Um estudo recente publicado na revista Future Humanities identificou um fenômeno denominado AI resignation, que é uma força avassaladora que enfraquece a percepção dos jovens sobre seu próprio poder de agir. Não se trata de preguiça, mas de um ambiente que foi construído para que desistir pareça a opção mais racional. Quando as pessoas tentam controlar algo e não conseguem, muitas vezes param de tentar. “Estamos lidando com sistemas muito mais rápidos e sofisticados do que a nossa própria consciência”, afirma Araújo.
A psicóloga ressalta que essa entrega do controle não é uma escolha consciente: “as pessoas acabam entregando o controle sem perceber”. Essa situação pode reduzir o esforço mental, mas tem um alto custo, que é a perda de autonomia nas escolhas cotidianas. Quando essa perda passa despercebida, ela se torna um padrão inconsciente.
O estudo também revela que adolescentes que tentam limitar o tempo de tela com bloqueios de aplicativos frequentemente desativam essas restrições e usam os serviços ainda mais. Isso ocorre porque eles interpretam esse problema estrutural como uma falha pessoal. Araújo afirma: “Quando um adolescente ativa bloqueios e depois desativa, isso mostra que o sistema funciona como foi projetado”. O risco é que eles internalizem a culpa, pensando “eu sou fraco” ou “não dou conta”, o que pode intensificar comportamentos indesejados.
Em resumo, o design do Instagram tem como objetivo manter a atenção do usuário, e a plataforma muitas vezes prioriza o que o usuário faz em vez do que ele diz querer. O feed tende a mostrar os interesses da plataforma, em vez de refletir os interesses reais do usuário. A escolha sempre existe, mas requer mais energia e consciência para ser exercida.



