O governo brasileiro espera a realização de uma última reunião com representantes dos Estados Unidos antes de uma decisão sobre a possível imposição de uma tarifa de 25% sobre produtos exportados pelo Brasil. A expectativa é que essa decisão seja anunciada nesta quarta-feira, dia 15 de julho.
Em entrevista, Josemar Franco, gerente de comércio internacional da BMJ, comentou sobre as implicações políticas relacionadas à investigação conduzida pelo USTR (Representante Comercial dos Estados Unidos) na chamada “seção 301”. Ele destacou que, apesar do caráter técnico da investigação, o viés político parece estar influenciando o processo.
“Apesar de nós termos uma investigação extremamente técnica, sendo encabeçada pelo USTR, a verdade é que o viés político está sendo sobreposto”, afirmou Franco.
O especialista também mencionou que diversas empresas e entidades estão participando de consultas públicas e audiências com a administração americana, apresentando suas preocupações. Para ele, a atuação do setor privado, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, será crucial para determinar se as tarifas serão impostas ou não.
“O esforço e a atuação do setor privado, tanto do Brasil como dos Estados Unidos, é definitivo para a imposição dessas tarifas ou não”, disse.
Um dos principais argumentos levantados pelo setor privado é o potencial impacto inflacionário que essas tarifas poderiam causar aos consumidores americanos. Franco apontou que, em certas áreas, o Brasil não possui substitutos viáveis como fornecedor. Ele destacou o café solúvel, em que o Brasil é o maior produtor e exportador mundial.
“No final do dia, os norte-americanos continuarão importando esse produto, pagando mais caro, ou seja, pagando o custo dessa inflação”, completou.
Franco também alertou para a possibilidade de uma combinação de tarifas que poderia elevar o total a 37,5% para produtos brasileiros, somando a tarifa de 25% com uma taxa adicional de 12,5% proveniente de outra investigação em andamento nos Estados Unidos. Ele avaliou que isso colocaria o Brasil em desvantagem competitiva em relação a outros exportadores.
“Isso nos colocaria em um patamar de baixíssima competitividade em relação aos outros países exportadores para os Estados Unidos”, avaliou.
Além disso, ele questionou a solidez das justificativas apresentadas pelo USTR, que incluem temas como desmatamento ilegal e políticas de pagamentos, como o Pix. Franco considerou que a argumentação é fraca do ponto de vista técnico e mistura questões distintas para tentar dar uma aparência de razoabilidade à investigação.
“Infelizmente há uma preponderância do viés político de imposição dessas tarifas contra o Brasil para chegar em outros acordos que não necessariamente têm a ver com essas políticas públicas que estão sendo investigadas”, concluiu.
A reunião esperada pelo governo brasileiro será a quinta entre os dois países, ocorrendo dentro do grupo de trabalho criado após a visita de Lula a Donald Trump, especificamente para discutir tarifas e comércio bilateral. O encontro tem como objetivo alinhar uma agenda com Jameson Greer, chefe do USTR.
Apesar das negociações em andamento, o cenário mais provável dentro do Palácio do Planalto é a imposição das tarifas pelos Estados Unidos. Embora um adiamento não esteja completamente descartado, é visto como uma possibilidade remota. O governo brasileiro, segundo informações, pretende manter sua estratégia atual, sem fazer concessões que considere injustificadas.
Na semana passada, Lula se reuniu com ministros, incluindo Mauro Vieira e Márcio Elias, este último responsável por conduzir as tratativas entre Brasil e Estados Unidos.
