Itabaiana · terça-feira · 15 de setembro de 2026
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A capa une jardins de conjuntos habitacionais a um cavalo, contrapondo liberdade e cerceamento. O quarteto de Manchester transforma essa tensão em canções que justificam a atenção da cena indie.

A capa de It Goes On, álbum de estreia do quarteto de Manchester Westside Cowboy, traz uma imagem que mistura referências sociais e simbólicas: jardins e quintais de conjuntos habitacionais — ícones da sociedade britânica pós-guerra — e um cavalo, símbolo do oeste americano e de liberdade. A justaposição sugere uma ideia recorrente na tradição musical dos dois países: o lugar não garante liberdade plena.

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O Westside Cowboy despontou na cena indie do Reino Unido com dois EPs bem recebidos — There Better Be Something Great (2025) e So Much Country Till We Get There (2026) — e com uma vaga como atração de abertura na turnê Getting Killed, do Geese, criando um movimento de expectativa em torno da banda. Esse tipo de reconhecimento pode inflar expectativas a ponto de fazer qualquer estreia parecer menor que o esperado. No entanto, a banda aparenta priorizar a diversão e a descoberta de identidade musical, e essa postura contribui para a qualidade de It Goes On.

O álbum abre com “Kick Stones (The Boys)”, primeiro single do trabalho. A faixa aposta em uma levada que lembra “Rock and Roll”, do Velvet Underground, e avança com um andamento direto, sem esconder nada por excesso de distorção ou efeitos. A gravação procura um aspecto cru e imediato.

“Maybe soon I will follow you and I will see for myself Out of some blue or some fantasy fortune, the locks have held And the rain sounds like bells, the plastic covered cars swim totally fine Have you heard that the boys are gone this time?”

“Talvez em breve eu te siga e veja por mim mesmo Por alguma sorte inesperada ou fortuna, as fechaduras resistiram E a chuva soa como sinos, os carros cobertos de plástico nadam tranquilamente Você ouviu que os meninos se foram dessa vez?”

Reuben Haycocks não é um vocalista habilidoso no sentido tradicional: canta muitas vezes para dentro, recitando letras como mantras. Ainda assim, as imagens nas letras são suficientemente vívidas para sustentar as canções. Um tema recorrente em It Goes On é a ausência — gente que se foi por morte, por mudança em busca de melhores condições, ou por afastamentos naturais da vida. Essas partidas aparecem como pequenos episódios que alimentam a memória em meio às lutas cotidianas.

Musicalmente, a banda remete a referências variadas: Velvet Underground e Pavement, junto a artistas cult ingleses como Los Campesinos e Martha. É um indie rock que, apesar das guitarras, conserva sensibilidade folk e elementos de canção narrativa.

As referências nas letras também dialogam com a tradição musical. “Pin Up Boys” traz versos que lembram a melodia de “The Gambler”, de Kenny Rogers, enquanto “Big Wheels”, canção que trata ostensivamente de amor, cita e remete a “Knockin’ On Heaven’s Door” (Bob Dylan) e “Proud Mary” (Creedence Clearwater Revival):

“Take the guns away from me, I can’t use them anymore Love isn’t found in a shell, but it’s found by your door There’s nothing else for me to see Big wheels keep on turning, round and round The steam drill keeps on pounding to the ground”

“Tire minhas armas, eu não consigo mais usá-las O amor não se encontra numa concha, mas se encontra na sua porta Não há mais nada para eu ver As rodas grandes continuam girando, de roda em roda A britadeira continua batendo no chão”

A influência do Velvet Underground aparece novamente em “Coyote”, onde a baixista Aoife [pronuncia-se Eve] Anson O’Connell assume os vocais. A letra é ácida ao tratar do aspecto displicente do progresso no capitalismo, usando a figura do Coyote como metáfora de busca inatingível e destruição.

No balanço final, It Goes On justifica o interesse em torno da banda sem necessariamente ser um ícone instantâneo do indie. Em comparação com estreias recentes de grande impacto, a proposta do Westside Cowboy aposta menos em carisma explícito e mais em criar a sensação de que o ouvinte está junto do grupo — fisicamente, pela textura das gravações, e emocionalmente, pelas imagens das letras. Esse efeito é o que tem mantido a atenção sobre a banda.

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Jornalista da Itabaiana FM 93.1 — trazendo as notícias de Sergipe para você.

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