Washington suspendeu o acesso de estrangeiros ao Fable 5 e ao Mythos 5. A medida reacende o debate sobre os riscos de depender de tecnologia controlada por outros países.
O Fable 5 foi lançado há menos de uma semana como a IA mais avançada da Anthropic. No entanto, na tarde de sexta-feira (12), o governo dos Estados Unidos suspendeu o acesso ao novo modelo e ao Mythos 5 para qualquer usuário estrangeiro, mesmo que a utilização ocorra dentro do território americano.
A justificativa apresentada pelo governo foi a descoberta de um jailbreak, mas a Anthropic contesta essa alegação, ressaltando que a vulnerabilidade encontrada é de alcance limitado e que a capacidade de identificar falhas em código já está presente em outros modelos públicos. Apesar disso, a empresa acatou a ordem e removeu o Fable 5 de todos os usuários.
Em entrevista, o diretor-executivo do ITS-Rio, Fabro Steibel, destacou que o episódio expõe um risco de disponibilidade e confirma uma preocupação de governos asiáticos, europeus e latino-americanos: usar uma infraestrutura de IA concentrada em empresas americanas significa aceitar que decisões políticas dos EUA podem interromper seus sistemas sem aviso, explicação ou recurso.
A base legal utilizada pelas autoridades foram os chamados controles de exportação, instrumentos que permitem restringir o acesso a tecnologias consideradas estratégicas. Normalmente aplicados a hardware, esses controles foram usados agora diretamente contra um modelo de software, sem que o governo precisasse apresentar evidências técnicas verificáveis.
“Isso demonstra que não há garantia contratual que supere uma ordem de segurança nacional americana. A relação não é entre cliente e fornecedor, mas entre usuário e jurisdição estrangeira”, explica Steibel.
O evento também reduz a confiança em garantias de continuidade, impactando investimentos de longo prazo, especialmente em infraestrutura e contratos corporativos. A falta de transparência em relação à falha explorada agrava o problema, pois a Anthropic não pode demonstrar que a vulnerabilidade foi corrigida e terceiros não têm como auditar a necessidade do bloqueio.
“O governo não precisa demonstrar que o jailbreak é replicável ou que o risco é iminente, basta invocá-lo sob o guarda-chuva de controles de exportação”, aponta Steibel. “Isso cria um precedente perigoso.”
O bloqueio ao Fable 5 e ao Mythos 5 é mais um capítulo na disputa tecnológica global entre os Estados Unidos e a China. A estratégia americana de restringir o acesso da China a componentes essenciais para o desenvolvimento de IA, como chips de alta performance, tem se mostrado insuficiente. A China desenvolveu suas próprias tecnologias e modelos a custos reduzidos, como os chips da Huawei e o DeepSeek.
O professor da FGV Direito Rio, Filipe Medon, destaca que essa mudança forçou uma nova abordagem, onde o foco agora é impedir que cidadãos estrangeiros acessem diretamente as tecnologias americanas de alta capacidade. Essa disputa também se reflete em outros campos, como a tentativa da Meta de adquirir a Manus AI, contestada pelo governo chinês.
“Quem tem acesso a essas ferramentas consegue, de uma forma nunca antes vista, ter um domínio quase total sobre outro país”, diz Medon.
Para o Brasil e a América Latina, o episódio reforça a necessidade de soberania digital. Entretanto, a região ainda enfrenta grandes desafios, pois está atrás das potências globais. O governo brasileiro anunciou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com investimentos de R$ 23 bilhões, mas especialistas consideram esse valor insuficiente. Em comparação, o investimento privado americano em IA alcançou US$ 285,9 bilhões em 2025.
O Chile se destacou ao lançar o Latam-GPT, um modelo de IA com dados localizados em espanhol. Este esforço é considerado o mais concreto da região em termos de um modelo de linguagem nativo até agora. A situação atual exige uma reflexão sobre as estratégias de desenvolvimento tecnológico e a independência da América Latina em relação às potências estrangeiras.



