Startups chinesas oferecem modelos avançados de IA de graça, reduzindo custos de treino e forçando a competição global. R1 da DeepSeek e Kimi K3 da Moonshot deram origem ao 'efeito DeepSeek'.
A decisão de empresas chinesas de disponibilizar gratuitamente modelos avançados de inteligência artificial está provocando uma transformação no mercado global de IA. Um exemplo notável ocorreu em 2025, quando a DeepSeek lançou seu modelo R1, que foi comparado a IAs norte-americanas e gerou o “efeito DeepSeek”. Esse fenômeno fez com que startups chinesas treinassem modelos a custos muito inferiores aos de suas concorrentes ocidentais e os oferecessem sem custo algum.
Recentemente, a startup Moonshot também chamou atenção ao liberar o Kimi K3. Embora a versão gratuita deste modelo tenha apresentado desempenho inferior ao Claude e ao ChatGPT, superou o Gemini, do Google. Essa mudança representa uma nova dinâmica em que tecnologias que antes exigiam bilhões em pesquisa e desenvolvimento estão sendo distribuídas gratuitamente, pressionando as empresas americanas e alterando a lógica competitiva entre as gigantes do setor.
“O modelo, na estratégia deles, é bilhete de entrada, não produto final”, afirma um especialista em inteligência artificial.
O neurocientista Álvaro Machado Dias explica que, embora empresas ocidentais possam relutar em contratar diretamente desenvolvedoras chinesas, como DeepSeek ou Moonshot, muitas não hesitam em baixar seus modelos gratuitos. Isso resulta em um impacto direto nas receitas das empresas americanas, uma vez que elas deixam de pagar pelas versões por assinatura da OpenAI, Anthropic e Google.
Apesar de serem gratuitos, os modelos chineses ainda possuem desafios em termos de implementação. O Kimi K-3, por exemplo, ocupa cerca de 1,6 terabyte e requer uma infraestrutura computacional robusta, o que é inviável para um usuário comum. Para funcionar, são necessárias duas máquinas com oito chips avançados da Nvidia cada, o que representa um investimento mínimo em torno de R$ 4 milhões.
Mesmo que a maior parte das empresas ainda opte por serviços de IA na nuvem, o fato de esses modelos estarem disponíveis gratuitamente já altera a dinâmica econômica do setor. O especialista ressalta que o modelo gratuito afetou o preço médio do mercado de IA na nuvem. Aplicações que exigem alto desempenho, como pesquisas farmacêuticas e engenharia avançada, ainda justificam os preços elevados, mas tarefas mais comuns enfrentam uma concorrência muito maior.
A situação se estende também aos governos. O especialista sugere que o Brasil poderia operar um modelo de IA em infraestrutura própria, principalmente para órgãos públicos. No entanto, os custos para implementar tal estrutura são altos, variando de R$ 250 milhões a R$ 400 milhões no primeiro ano para todo o funcionalismo federal.
“O modelo em si, fruto de bilhões de pesquisa chinesa, chega pronto e de graça. Caro é tudo o que o cerca”, destaca o especialista.
Em relação às desenvolvedoras americanas, a competição entre modelos abertos e fechados não elimina seu potencial, mas altera a forma como são avaliadas. Empresas como Google, OpenAI e Nvidia estão focadas na infraestrutura global da inteligência artificial. O que se espera para os próximos anos é que a competição se baseie menos na qualidade dos modelos e mais no custo da infraestrutura necessária para operá-los.
Nos Estados Unidos, a principal dificuldade está no fornecimento de energia para os data centers. Em contrapartida, a China vem ampliando sua capacidade de geração elétrica e investindo em chips próprios. Assim, os modelos chineses, que já são gratuitos, podem se tornar ainda mais baratos de operar, mudando o cenário competitivo da inteligência artificial.
