Itabaiana · terça-feira · 03 de novembro de 2026
⏱ 4 min de leitura

Na zona rural de Nossa Senhora das Dores, moradores acumulam caixas d'água e dependem de caminhões-pipa. Em Barreiros, algumas casas ficaram até 15 anos sem água; neta de 12 anos só viu torneira com água em julho.

Em uma casa de poucos metros quadrados na Zona Rural de Nossa Senhora das Dores, no Médio Sertão Sergipano, Maria Vaneide Gomes acumulou caixas d’água ao longo dos anos para enfrentar a irregularidade no abastecimento. A residência abriga o esposo, dois netos e a aposentada; a neta mais nova, que completou 12 anos, nunca tinha visto água na torneira da casa até julho deste ano.

Publicidade

Moradores da comunidade de Barreiros, na região do Povoado Volta, relataram períodos sem água que chegaram a durar 15 anos em algumas casas. A rotina incluiu dependência de caminhões-pipa, baldes e tonéis como formas de garantir água para consumo e uso doméstico.

“Geralmente, os meninos que trabalham lá na cidade voltavam de moto e traziam uns baldes e tonéis de água, ou então o carro-pipa. Era vivendo de carro-pipa”

Segundo relatos locais, a região tem um clima seco, mas com precipitação menos severa que outras áreas ao norte. Na década de 2010 foi construída uma cisterna pelo programa Água Para Todos, mas o reservatório apresentou vazamento e a água da chuva deixou de ser usada há alguns anos.

Até 2026 a família acumulou caixas d’água e, naquele ano, a água voltou à torneira da casa, porém sem regularidade. Vaneide descreveu a alternância no fornecimento: semanas com água seguidas de semanas sem abastecimento. Em situação parecida, mas com maior frequência, vive José Heleno dos Santos, que mora a menos de um quilômetro do Povoado Volta.

“Ainda falta, mas agora a gente tem aqui [disse apontando para a mangueira de água], olhe que bonito: a água dentro de casa”

O levantamento do Instituto Água e Saneamento indica que o município de Nossa Senhora das Dores chega a superar 99% da população atendida com abastecimento de água, dado que não reflete necessariamente a regularidade do serviço. No que se refere ao esgotamento sanitário, informações do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa 2024) apontam que cerca de 53,9% da população do município é atendida pelo serviço.

O povoado onde vivem Vaneide e José Heleno ainda não conta com rede de esgoto. Dentro da sede do município, a situação é apontada como pior por causa de residências com vazão inadequada, despejando esgoto em vias públicas e expondo moradores, crianças e animais a riscos sanitários e ambientais. Um levantamento do Instituto Água e Saneamento identificou 11.778 habitantes sem coleta de esgoto, em um total de 24.996 pessoas segundo o último Censo do IBGE.

Na Rua José Teles Barreto, no Bairro Fontinhas, o esgoto que sai das residências percorre vias públicas e causa mau cheiro. A empresa responsável pelo serviço destaca que a interligação à rede de esgoto traz benefícios para a saúde pública ao reduzir exposição a agentes contaminantes e preserva o meio ambiente, evitando o lançamento de material tóxico em rios, canais, lagoas, manguezais e no solo.

Um estudo do Instituto Trata Brasil relacionou internações por diarreias, verminoses, doenças de pele e enfermidades causadas pela proliferação de mosquitos — como dengue e chikungunya — a falhas nos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário; o levantamento apontou 344 mil internações no país em 2024 por essas causas.

Dados do Sinisa 2024 mostram que 65,6% da população de Sergipe é atendida com coleta de esgoto, o que representa cerca de 800 mil pessoas sem acesso ao serviço no estado. O atendimento na zona rural chega a 36,5%, enquanto na zona urbana alcança 72,8%, níveis ainda distantes da meta do Marco Civil do Saneamento Básico, que prevê 90% de cobertura de coleta e tratamento de esgoto até 2033.

Estudos sobre investimentos indicam aumento do aporte médio anual por habitante entre 2020 e 2024, passando de R$ 90,54 para R$ 137,02 — valor ainda inferior à estimativa de R$ 225 por habitante ao ano considerada necessária para a universalização. Em 2025, os serviços em Sergipe foram concedidos e a operação ficou a cargo da Iguá Sergipe, em contrato de 35 anos com previsão de R$ 6,3 bilhões em investimentos.

A Iguá informou que, em 2025, foram realizadas intervenções com a instalação de 16 novos sistemas de bombeamento, como o que beneficiou as comunidades citadas.

Redação
ESCRITO POR
Redação

Jornalista da Itabaiana FM 93.1 — trazendo as notícias de Sergipe para você.

11699 artigos publicados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

🔔

Quer receber as notícias em primeira mão?

Notificações das principais notícias de Sergipe direto no seu navegador — sem spam.