Uma das perguntas mais frequentes entre pacientes com doença de Parkinson é: “Doutor, meu remédio parou de funcionar?”. Essa dúvida geralmente surge quando os comprimidos, que antes controlavam bem os sintomas, começam a apresentar efeitos mais curtos ou imprevisíveis.
Na verdade, a levodopa não simplesmente deixa de funcionar. O que ocorre é que, com a progressão da doença, a capacidade do cérebro de armazenar e utilizar a dopamina de maneira regular diminui. Assim, o paciente se torna cada vez mais dependente da quantidade de levodopa que circula no sangue naquele momento.
Isso resulta nas chamadas flutuações motoras: períodos “on”, em que o medicamento está agindo e os movimentos estão mais livres, intercalados com períodos “off”, quando a rigidez, lentidão, tremor ou dificuldades para caminhar retornam. Discinesias, que são movimentos involuntários relacionados às oscilações da medicação, também podem surgir.
“A levodopa continua sendo o medicamento mais eficaz para controlar os sintomas motores da doença de Parkinson”, explica o neurologista Marcelo Zalli.
A levodopa se mantém eficaz nos primeiros anos de tratamento, quando o cérebro ainda consegue armazená-la e convertê-la em dopamina de forma relativamente estável. Entretanto, à medida que ocorre a perda progressiva dos neurônios produtores de dopamina, essa capacidade se reduz. Além disso, a absorção dos comprimidos pode variar devido ao funcionamento do estômago, horários das refeições e presença de proteínas na dieta.
Esse cenário provoca picos e quedas na concentração do medicamento, levando o paciente a necessitar de doses mais frequentes, acordar já em período “off” ou perceber que o efeito termina antes da próxima dose. Aumentar a dose dos comprimidos nem sempre resolve o problema. Muitas vezes, essa abordagem pode intensificar as discinesias e outros efeitos adversos.
Recentemente, uma nova abordagem terapêutica foi aprovada pela Anvisa: a combinação de foslevodopa e foscarbidopa, que pode ser administrada através de uma bomba portátil que realiza infusão subcutânea contínua durante 24 horas. Essa estratégia visa manter níveis mais estáveis de levodopa na circulação, reduzindo os períodos “off” e melhorando a qualidade de vida dos pacientes.
Estudos clínicos indicam um aumento significativo do tempo “on” sem discinesias incapacitantes, representando uma nova alternativa para aqueles que ainda apresentam flutuações mesmo com o tratamento oral otimizado. A infusão contínua passa a ser uma das várias terapias avançadas disponíveis para pacientes selecionados.
Além disso, a infusão intestinal de levodopa e a estimulação cerebral profunda (DBS) também são opções que buscam oferecer controle mais estável dos sintomas. A escolha do tratamento depende de fatores como idade, tempo de doença, intensidade das flutuações motoras e estado cognitivo do paciente.
É crucial entender que o surgimento de períodos “on” e “off” não indica que o tratamento atingiu seu limite. Muitas vezes, é apenas o início de uma nova fase na gestão da doença. A aprovação da nova terapia representa um avanço significativo, enfatizando a necessidade de um tratamento cada vez mais personalizado e focado na qualidade de vida dos pacientes.
