Itabaiana · quarta-feira · 07 de outubro de 2026
📻 Ao vivo agora: Linha 93  📲 Participar
⏱ 5 min de leitura

A cota de exportação de carne bovina para a China deve provocar uma mudança significativa na dinâmica de comercialização da pecuária brasileira nos próximos anos. Este movimento tende a reduzir a concentração das vendas para o principal destino da carne nacional, alterando a estratégia de frigoríficos, confinadores e pecuaristas ao longo do ano.

De acordo com uma análise da StoneX, essa nova realidade representa uma quebra no padrão observado anteriormente, em que a segunda metade do ano, especialmente nos meses de outubro, novembro e dezembro, concentrava uma forte demanda chinesa pelo produto brasileiro. Com a adoção das cotas, espera-se que as indústrias antecipem a busca por animais para preencher os volumes autorizados logo no início dos períodos de vigência, especialmente no primeiro trimestre.

Publicidade

Essa mudança pode inverter a tradicional curva de preços da arroba, que historicamente registrava maior valorização no final do ano. “A imposição dessas cotas pela China já é uma quebra estrutural”, explica a analista de proteínas animais da StoneX, Larissa Barboza. Segundo ela, a nova dinâmica exige uma reorganização de todo o planejamento da cadeia, desde a compra de animais de reposição até o calendário dos confinamentos.

Nos últimos anos, muitos pecuaristas estruturavam a produção para entregar animais terminados no segundo semestre, período em que a China aumentava as compras e os confinamentos ganhavam maior participação na oferta. Agora, com a antecipação da demanda chinesa, a concentração dos animais disponíveis pode mudar.

Além da mudança no calendário de comercialização, o setor enfrenta o desafio de encontrar novos destinos para o volume que deixou de ser embarcado para a China. A gerente de exportação Natália Braga Simão ressalta que a redução dos embarques representa um volume expressivo que precisará ser absorvido por outros mercados nos próximos meses.

No ano passado, o Brasil exportou cerca de 1,6 milhão de toneladas de carne bovina para a China. Para 2026, a cota estabelecida é de aproximadamente 1,1 milhão de toneladas, uma redução de 500 mil toneladas em relação ao volume anterior. Considerando que a cota foi preenchida na metade de junho e que os frigoríficos devem voltar a negociar novos embarques com a China em outubro, isso representa uma necessidade de redirecionar cerca de 125 mil toneladas de carne por mês entre julho e outubro.

“É um grande volume. Eu não vejo nenhum mercado absorver esse volume sozinho”, afirma a gerente. Na avaliação dela, o período exigirá uma reorganização das estratégias comerciais das empresas, com maior diversificação dos destinos e busca por alternativas para equilibrar a menor participação chinesa no curto prazo.

Com a limitação das vendas para a China, frigoríficos com operações em outros países da América do Sul, como Argentina, Paraguai e Uruguai, podem utilizar essas unidades para atender o mercado asiático, enquanto redirecionam a produção brasileira para outros destinos. O pecuarista Lorenzo Junqueira menciona que o primeiro semestre de 2026 foi marcado por uma corrida da indústria para garantir os embarques antes do preenchimento da cota chinesa.

“Assim que soubemos da aplicação das salvaguardas, houve uma verdadeira corrida da indústria para abater os animais e embarcar a carne bovina o mais rápido possível. Não houve regra: quem chegasse primeiro, bebia água limpa”, afirma Junqueira.

Ele enfatiza que, com a cota preenchida e sem uma flexibilização por parte da China, o Brasil perde competitividade no principal mercado consumidor da carne bovina brasileira, que representa cerca de 45% de toda a carne bovina exportada pelo Brasil.

Apesar da retração no terceiro trimestre, Junqueira acredita que o mercado deve voltar a ganhar ritmo a partir de novembro, quando os frigoríficos devem iniciar uma nova corrida para atender a cota de 2027 e garantir a chegada da carne ao país antes do Ano Novo Chinês.

A nova estrutura de exportação deverá alterar a formação dos preços da arroba ao longo do ano. Historicamente, o segundo trimestre era marcado pela maior oferta de animais, enquanto o segundo semestre registrava recuperação das cotações com o avanço das exportações. Agora, com a necessidade de antecipar os embarques para a China, o movimento pode ser diferente, com maior pressão de compra nos primeiros meses do ano e valorização dos contratos futuros para períodos de maior demanda.

Outro ponto de atenção é o mercado de reposição. O Brasil registrou no primeiro trimestre de 2026 o maior volume de abates da série histórica do IBGE, impulsionado pela corrida para atender a demanda chinesa antes do limite das cotas. Contudo, dados mais recentes indicam uma redução dos abates, principalmente de fêmeas, o que pode sinalizar uma mudança no ciclo pecuário.

A StoneX avalia que a intensidade desse movimento será determinante para os preços da reposição em 2027. Caso a retenção de fêmeas aumente, a menor disponibilidade de animais para reprodução pode pressionar os valores dos bezerros e das categorias de reposição. A CNA prevê uma queda de 4,5% na produção de carne bovina em 2026.

Redação
ESCRITO POR
Redação

Jornalista da Itabaiana FM 93.1 — trazendo as notícias de Sergipe para você.

10420 artigos publicados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

🔔

Quer receber as notícias em primeira mão?

Notificações das principais notícias de Sergipe direto no seu navegador — sem spam.