Itabaiana · domingo · 04 de outubro de 2026
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Por muito tempo, o debate sobre a ascensão econômica da China esteve centrado em clichês como mão de obra barata, câmbio desvalorizado e cópias de propriedade intelectual. Embora esses pontos tenham alguma verdade, eles não explicam a complexidade do cenário atual.

Um relatório recente do Rhodium Group, publicado em março de 2026, oferece uma visão mais sofisticada e inquietante. Pequim estruturou o que analistas chamam de ‘electro-state’ ou Estado elétrico, um ecossistema cujas implicações globais ainda são difíceis de decifrar para o Ocidente.

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A tese central do documento é simples, mas seus desdobramentos são vertiginosos. A China integrou, em uma cadeia única e autorreforçável, três pilares fundamentais: a geração de energia elétrica barata, o processamento de metais industriais e a fabricação de tecnologias verdes.

Cada elo dessa cadeia atua como um catalisador do próximo. A eletricidade abundante reduz o custo de refino do alumínio, cobre e lítio. Esses metais baratos, por sua vez, barateiam a produção de painéis solares, turbinas eólicas e baterias, enquanto as fontes renováveis injetam ainda mais energia de baixo custo na rede. Esse ciclo se retroalimenta em um redemoinho industrial que o restante do mundo observa com admiração e impotência.

Os dados apresentados pelo Rhodium Group são impressionantes e desconfortantes para qualquer planejador estratégico ocidental. Em 2025, a geração combinada de energias solar e eólica na China superou o consumo industrial total dos Estados Unidos. Em 2026, essa produção limpa ultrapassará a soma dos consumos doméstico e industrial americanos.

No campo da eletrificação da frota, os veículos elétricos na China já economizam o equivalente a 1,76 milhão de barris de petróleo por dia, tornando o país progressivamente menos vulnerável a choques no mercado de combustíveis fósseis.

Desde o início do milênio, a China respondeu por 60% do crescimento do consumo global de eletricidade. Mesmo com a desaceleração econômica recente, a demanda elétrica chinesa continua a crescer a taxas superiores às do restante do mundo. Isso representa uma anomalia estatística que desafia os modelos econômicos tradicionais.

Seria fácil ver essa trajetória como uma narrativa puramente verde, mas o relatório destaca suas contradições. A espinha dorsal desse ecossistema não se apoia apenas em fontes renováveis, mas no carvão.

A China expandiu a maior frota de termelétricas do mundo, pois o carvão é um recurso abundante no país e a metalurgia básica exige energia firme e previsível. O carvão, portanto, funciona como uma âncora, garantindo que as flutuações climáticas não paralise as indústrias de alumínio e as fábricas de baterias.

Para países que buscam estruturar suas próprias cadeias de suprimentos em minerais críticos, a China se tornou um modelo quase inalcançável. Os efeitos de rede do Estado elétrico chinês foram desenvolvidos ao longo de décadas, com apoio estatal e metas rigorosas.

A combinação de processamento de metais, infraestrutura energética e manufatura avançada que a China consolidou é quase impossível de replicar em qualquer outro mercado. Para as economias ocidentais, o desacoplamento exigirá tarifas protecionistas, que terão um custo político e econômico, repassado ao consumidor final.

O Brasil observa essa dinâmica de uma posição vulnerável, mas perigosa. Embora seja um grande exportador de minério de ferro, alumínio e lítio, ainda importa produtos manufaturados de alto valor agregado, muitos dos quais são feitos com insumos brasileiros. O relatório sugere que a janela de oportunidade para verticalizar essa produção está se fechando rapidamente, e o Brasil possui uma matriz elétrica limpa que poderia ser um diferencial nesse cenário.

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Jornalista da Itabaiana FM 93.1 — trazendo as notícias de Sergipe para você.

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