Nos últimos anos, contrair dívidas era frequentemente associado a conquistas como a compra da casa própria ou de um carro. Contudo, a realidade atual de muitos brasileiros é diferente, com o crédito se tornando uma ferramenta para cobrir despesas básicas, como alimentação e contas de energia. Em abril de 2026, 80,9% das famílias brasileiras relataram estar endividadas, o maior índice desde o início da pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Rodrigo Rocha, economista e professor da Universidade Tiradentes (Unit), analisa essa situação e aponta que o aumento do endividamento está ligado a fatores como juros elevados, inflação e a diminuição do poder de compra da população. Ele destaca que cada vez mais famílias dependem do crédito para equilibrar suas finanças.
Correio de Sergipe/AJN1 – O que tem levado cada vez mais pessoas ao endividamento?
Rodrigo Rocha responde que a expansão dos serviços financeiros digitais e o acesso facilitado a limites de crédito têm contribuído para essa situação. Além disso, novas práticas de consumo, como apostas online, têm absorvido parte significativa da renda familiar, prejudicando o pagamento de contas.
CS/AJN1 – Qual o principal vilão do endividamento?
O cartão de crédito é apontado como o principal responsável pelo endividamento, pois ao não quitar a fatura total, muitos consumidores acabam entrando no crédito rotativo, que apresenta juros altos e agrava a situação financeira.
CS/AJN1 – Além do cartão de crédito, o que mais tem pesado no bolso?
Rodrigo menciona que outras modalidades de crédito, como carnês de loja, empréstimos pessoais e cheque especial, também têm um impacto significativo nas finanças. Muitas vezes, esses créditos são utilizados após outras opções já terem sido esgotadas, aumentando o comprometimento da renda.
CS/AJN1 – Como o senhor avalia a relação do brasileiro com o consumo?
Ele observa que, para as famílias de menor renda, o crédito deixou de ser uma ferramenta ocasional e passou a ser um complemento essencial ao orçamento. Mudanças culturais, como a influência das redes sociais e a facilidade do comércio eletrônico, também têm impulsionado um consumo mais imediato.
CS/AJN1 – Qual o perfil do consumidor mais afetado pelo endividamento?
As famílias com renda mensal de até três salários mínimos são as mais vulneráveis, assim como mulheres que sustentam sozinhas seus lares, que frequentemente enfrentam desafios financeiros maiores.
CS/AJN1 – O Brasil tem registrado um crescimento da informalidade, o senhor vê esse grupo mais exposto à inadimplência?
Rodrigo destaca que jovens, trabalhadores informais e aposentados estão mais expostos ao risco de inadimplência devido à renda irregular e à facilidade de acesso ao crédito digital.
CS/AJN1 – Quando a dívida vira problema?
Ter dívidas não é, em si, um sinal de crise financeira. O problema surge quando a dívida consome uma parte excessiva da renda, especialmente acima de 30%, afetando a capacidade de cobrir despesas essenciais.
CS/AJN1 – Quando a situação se torna mais preocupante?
Rodrigo alerta que a situação se agrava quando a reserva de emergência se esgota, resultando em controle inadequado das finanças e afetando a saúde emocional e os relacionamentos.
CS/AJN1 – Quais os impactos deste cenário de endividamento para a economia?
O alto nível de endividamento não impacta apenas as famílias, mas também resulta em queda no consumo em áreas como comércio e serviços, o que pode afetar a economia como um todo.
