O sangue que falta não é qualquer tipo. Essa é uma constatação que resume um dos maiores desafios da saúde pública no Brasil. Apesar das campanhas constantes para incentivar a doação, a realidade é que alguns tipos sanguíneos são naturalmente raros. Isso gera uma corrida contra o tempo para pacientes e hemocentros em situações de emergência.
Nem todo sangue é compatível e a raridade de determinados tipos está relacionada a fatores genéticos, históricos e populacionais. De acordo com a Sociedade Internacional de Transfusão Sanguínea (ISBT), um tipo sanguíneo é considerado raro quando aparece em menos de 1 a cada 1.000 pessoas. Essa raridade ocorre devido à ausência de antígenos comuns na maioria da população ou a combinações muito específicas desses antígenos.
A distribuição dos tipos sanguíneos no Brasil é desigual. O tipo O+ representa cerca de 38% da população, enquanto o tipo AB- é o mais raro, atingindo apenas 1%. O tipo O-, que é essencial em emergências por ser universal, corresponde a apenas 7% da população. Já o Rh nulo, conhecido como ‘sangue dourado’, é tão incomum que há menos de 50 casos registrados no mundo. Menos de 1% dos brasileiros possui tipos sanguíneos considerados raros. Essa escassez é preocupante, mas existe uma complexidade ainda maior: os sistemas sanguíneos além do ABO e Rh.
O sangue humano possui mais de 360 antígenos distribuídos em 43 sistemas. Quando uma pessoa apresenta combinações raras desses antígenos, ela se torna parte do grupo de doadores raros, que podem ser únicos em um estado inteiro. Nesses casos, não basta ter um tipo O-; é necessário ter um perfil imunológico extremamente específico.
Os bancos de sangue enfrentam grandes desafios para localizar doadores raros. Quando um paciente necessita de um tipo sanguíneo raro, as chances de encontrar uma bolsa compatível diminuem consideravelmente. Isso ocorre porque há menos doadores com esses tipos. Se não houver estoque em hospitais ou hemocentros comuns, pode ser necessário acionar bancos especializados ou buscar doadores em outros estados, um processo que consome tempo crucial.
A busca convencional por doadores raros é cara e trabalhosa. Por esse motivo, os bancos de sangue monitoram esses doadores e mantêm contato frequente para garantir a disponibilidade quando necessário. No entanto, localizar um doador compatível pode levar horas preciosas. A logística também é delicada: o transporte de uma bolsa rara exige controle rigoroso de temperatura e tempo, e muitas vezes envolve deslocamentos interestaduais.
Durante emergências, a compatibilidade é fundamental. O AB- só pode receber sangue de outros doadores Rh negativos, tornando as transfusões mais desafiadoras. Quando surge uma necessidade urgente, os hemocentros acionam bancos de dados de doadores raros e utilizam geolocalização para encontrar o doador mais próximo rapidamente. Aplicativos especializados já conectam doadores a hemocentros, permitindo acionamento imediato.
A demanda por transfusões de pacientes com fenótipos raros representa um grande desafio para os serviços de hemoterapia, pois o suporte adequado depende da disponibilidade de unidades de doadores compatíveis. Portanto, doar sangue — especialmente se você possui um tipo raro — é fundamental para salvar vidas.
A falta de sangue raro pode comprometer cirurgias, tratamentos de doenças hematológicas e atendimentos de emergência. Quanto mais pessoas doarem regularmente, maior será a chance de identificar novos perfis raros e fortalecer a rede que salva vidas todos os dias.
Texto escrito pelo hematologista Jefferson Ruiz, hemoterapeuta com especialização em Transplante de Medula Óssea do Grupo VITA de Curitiba.
