Com a crescente popularidade dos chatbots, milhões de pessoas passaram a incorporar essa tecnologia em suas rotinas diárias. Estudantes agora solicitam resumos prontos, profissionais delegam a elaboração de e-mails e relatórios a ferramentas de inteligência artificial, e até decisões do dia a dia, como escolher um restaurante ou planejar finanças, são frequentemente baseadas em consultas rápidas a essas ferramentas.
Esse uso constante levanta uma questão importante: até que ponto a dependência de tecnologias pode afetar as capacidades cognitivas que o cérebro humano levou anos para desenvolver?
A psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim alerta que o impacto depende do momento em que a tecnologia deixa de ser um apoio e passa a substituir o raciocínio humano.
Juliana explica que, embora o risco exista, não é automático. “O nosso cérebro se desenvolve e se fortalece quando analisamos informações, fazemos conexões, questionamos e buscamos soluções para problemas. Quando esse processo é substituído por respostas prontas, as habilidades cognitivas tendem a ser menos exercitadas”, afirma.
A especialista observa que o uso excessivo de ferramentas de IA pode levar a um raciocínio mais mecânico e menos reflexivo, reduzindo o espaço para avaliação de diferentes perspectivas e para a construção de conclusões próprias. Ela destaca que a criatividade, que envolve experiências vividas, emoções e a interpretação única de cada indivíduo, não pode ser totalmente reproduzida por tecnologias.
Juliana também menciona que a chamada “preguiça cognitiva” já é uma realidade. O cérebro humano está demonstrando menos disposição para buscar informações mais profundas, concatenar fatos e sustentar análises críticas, favorecendo respostas rápidas e prontas.
A neuropsicóloga compara o cérebro ao corpo: ambos precisam ser exercitados constantemente. Assim como o uso contínuo de telas pode levar a problemas posturais, mudanças no modo de pensar e aprender podem surgir, impactando a profundidade de leitura, a capacidade de concentração, a criatividade e a curiosidade.
Juliana destaca cinco funções mentais que são particularmente afetadas pela dependência de tecnologias que pensam por nós: a busca ativa por informações, a criatividade, a atenção e a concentração, a memória e o planejamento. Ela enfatiza que essas habilidades estão se desgastando à medida que as pessoas se tornam mais dependentes de respostas automáticas.
Sobre a criatividade, Juliana afirma que o uso constante de respostas prontas pode reforçar caminhos já estabelecidos, limitando a experimentação e a originalidade. “A criatividade depende de repertório, vivências, emoções e da liberdade para fazer associações inesperadas”, explica.
Além disso, a neuropsicóloga menciona a importância do erro no processo de aprendizagem. Ao recorrer diretamente à IA para esclarecer dúvidas, as pessoas podem estar diminuindo o esforço cognitivo necessário para formar memórias e consolidar conhecimentos. A aprendizagem humana envolve não apenas acertos, mas também tentativas e correções, fortalecendo as conexões cerebrais necessárias para a memorização.
Em resumo, Juliana sugere que, em vez de abandonar o uso da inteligência artificial, é fundamental reposicionar seu papel: utilizá-la como uma fonte de inspiração e apoio, nunca como substituta da nossa capacidade de pensar e criar.
