Tecnologia de inteligência artificial detecta ceratocone em estágio inicial, antes de qualquer sinal visível. A descoberta precoce pode mudar o tratamento e reduzir transplantes de córnea no Brasil.
Durante o mês de “Junho Violeta”, uma campanha nacional iniciada em 2018 pela Sociedade Brasileira de Oftalmologia, a atenção se volta para o ceratocone, uma condição que afina e deforma a córnea, a parte frontal dos olhos. Essa doença é uma das principais razões para transplantes de córnea no Brasil, afetando cerca de 150 mil pessoas anualmente. A mensagem central da campanha é a importância do diagnóstico precoce, e a boa notícia é que a inteligência artificial (IA) está se tornando uma ferramenta valiosa nesse processo, possibilitando a detecção do ceratocone antes que os pacientes apresentem qualquer sintoma.
O ceratocone pode ser surpreendentemente silencioso. Muitas pessoas diagnosticadas não percebem que têm a doença, pois, na fase inicial, a curvatura da córnea ainda parece normal e não é detectada em exames convencionais. Essa fase é conhecida como ceratocone subclínico, onde as alterações começam a ocorrer na superfície posterior da córnea, que só são visíveis em exames mais avançados.
A peculiaridade do ceratocone é que ele é, por definição, bilateral e assimétrico. Isso significa que é comum um olho apresentar a doença de forma avançada enquanto o outro parece normal. Pesquisadores buscam sinais desses olhos que ainda não manifestaram a condição, mas que têm a doença.
O trabalho da IA é analisar dados complexos gerados por exames de tomografia, que incluem informações sobre a elevação da córnea, espessura e curvatura. Os algoritmos podem processar rapidamente centenas de dados, identificando padrões sutis que podem passar despercebidos por humanos. Atualmente, sistemas de IA já alcançam uma sensibilidade superior a 98% na detecção do ceratocone em sua forma instalada, e 90% na forma subclínica, com melhorias constantes a cada ano.
A urgência em diagnosticar precocemente se deve ao fato de que o tratamento conhecido como crosslinking de colágeno é o único capaz de impedir a progressão da doença. Ele estabiliza a córnea na condição em que se encontra, mas não reverte deformações já existentes. Estudos indicam que o tratamento é eficaz em 85% a 95% dos casos, sendo mais benéfico para os pacientes mais jovens que apresentam maior risco.
Diagnosticar o ceratocone em sua fase subclínica permite intervenções antes que a visão seja comprometida, evitando complicações que exigem o uso de lentes especiais ou até mesmo transplantes. No futuro, a combinação de exames de alta resolução com inteligência artificial promete aprimorar ainda mais a detecção precoce, especialmente em adolescentes e jovens adultos, que são os mais suscetíveis à doença.
A triagem para ceratocone também é essencial antes da realização de cirurgias refrativas a LASER, já que a presença da doença é uma contraindicação para esses procedimentos. Além disso, novas tecnologias estão sendo desenvolvidas para prever a progressão da doença e a resposta ao tratamento, facilitando o rastreamento em áreas onde o acesso a tomógrafos é limitado.
É importante lembrar que, mesmo com o avanço da IA, a decisão clínica continua a ser fundamental. A tecnologia atua como um suporte, apontando detalhes que podem não ser percebidos na avaliação humana. A boa notícia é que as principais medidas preventivas permanecem acessíveis a todos: consultas oftalmológicas anuais, atenção a mudanças frequentes na visão e evitar coçar os olhos são práticas recomendadas, especialmente para os mais jovens, que podem se beneficiar da tecnologia em conjunto com o acompanhamento médico.
