Rodada de negociações entre EUA e Irã terminou nesta segunda (22) sob ceticismo. Para especialista da UnB, Washington negocia movido por agenda própria, não pela paz regional.
A mais recente rodada de negociações entre representantes dos Estados Unidos e do Irã encerrou-se na manhã desta segunda-feira (22), gerando reações contundentes no cenário geopolítico regional.
Em entrevista, o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Juliano Cortinhas, avaliou os possíveis desdobramentos do processo negociador e os interesses que permeiam as conversações.
“Eu vejo os negociadores do Trump com vários interesses na mesa de negociações, mas esses interesses não passam diretamente pela estabilidade da região”,
afirmou o especialista. Segundo ele, a paz no Oriente Médio seria, na prática, o objetivo menos almejado pelos envolvidos nas negociações.
O professor citou especificamente Jared Kushner como exemplo dessa dinâmica.
“O Jared Kushner não é alguém com capacidade diplomática e não tem esse interesse do Estado americano. Ele é um especulador imobiliário que quer enriquecer com esses acordos”,
declarou Cortinhas, classificando a situação como
“muito lastimável em termos de qualidade da democracia americana”.
Para o analista, Trump teria inserido assessores com interesses próprios nas negociações, em detrimento dos interesses nacionais. Além disso, Cortinhas apontou que há um componente de política doméstica: um acordo minimamente aceitável poderia trazer benefícios eleitorais a Trump e reduzir a insatisfação do eleitorado norte-americano.
A decisão dos Estados Unidos de permitir que o Irã retome a venda de petróleo deixou Israel, segundo o professor,
“absolutamente furioso”.
Cortinhas avaliou que Israel também analisa a situação pelo prisma de sua política interna.
“Netanyahu está enfrentando processos muito sérios internamente e corre inclusive o risco de ser preso depois de sair de sua posição de líder”,
explicou o especialista. Nesse contexto, o professor argumentou que o prolongamento dos conflitos na região — seja na Palestina, com o Irã ou com o Líbano — serviria aos interesses políticos de Netanyahu.
“Ele não quer a paz no Oriente Médio, porque a paz significa que ele pode estar mais próximo de uma saída do seu governo”,
disse Cortinhas. Para o analista, Netanyahu busca se manter como figura indispensável no governo israelense, tentando adiar possíveis processos judiciais internos.
A contenção desse ciclo, segundo ele, dependeria de uma pressão direta dos Estados Unidos sobre Israel, tornando as negociações
“extremamente difíceis, não só com o Irã, mas com toda a região”.
