Líderes do G7 firmaram acordo para reduzir a dependência chinesa em terras raras até 2030. O Brasil vê na decisão uma chance de ampliar seu peso nas cadeias produtivas globais.
O acordo estabelecido pelos líderes do G7 para reduzir a dependência da China em minerais críticos e terras raras foi recebido no Brasil como uma oportunidade para o país aumentar seu poder de negociação na reorganização das cadeias produtivas globais.
Na quarta-feira (17), o G7 definiu que a meta é limitar a dependência de qualquer fornecedor a menos de 60% para terras raras e ímãs permanentes até 2030, com a ambição de reduzir a 50% o mais rápido possível. O plano inclui a coordenação de estoques estratégicos, diversificação de fornecedores, reciclagem e mecanismos apoiados pela Agência Internacional de Energia.
A medida atinge diretamente a China, que tem domínio em etapas importantes da cadeia de terras raras, como processamento, separação e produção de ímãs permanentes. O Ministério das Relações Exteriores da China respondeu defendendo seus controles de exportação sobre minerais críticos e criticou a formação de blocos econômicos exclusivos, alertando que isso pode prejudicar o comércio global.
No Brasil, o governo interpreta este movimento como uma janela de oportunidade para aumentar sua relevância na cadeia produtiva. A disputa entre Estados Unidos, União Europeia, Japão e China por fontes alternativas de minerais críticos abre espaço para o Brasil exigir investimentos em beneficiamento, processamento, pesquisa, tecnologia e industrialização local.
O Brasil está em negociações sobre minerais críticos com Estados Unidos, União Europeia e Japão, sendo as conversas com os norte-americanos as mais avançadas, embora ainda enfrentem obstáculos políticos. A avaliação no governo é que novos compromissos devem ter efeitos práticos, evitando a repetição de memorandos de entendimento amplos que não resultaram em desdobramentos industriais concretos.
A proposta americana menciona explicitamente a construção de capacidades de refino no Brasil, com financiamentos que poderiam ser estruturados por instituições financeiras dos EUA, como a DFC e o Exim Bank. Esses recursos estariam relacionados a contratos de compra futura, conhecidos como offtakes.
Um ponto que gera preocupação em parte do governo é a menção a um “first look” para investimentos no setor, interpretada como uma tentativa de garantir aos Estados Unidos prioridade na análise de projetos em minerais críticos no Brasil, mesmo sem uma exclusividade formal.
A ala desenvolvimentista do governo vê o movimento do G7 como um reforço à ideia de que o Estado brasileiro deve ter mais poder de coordenação no setor. Esse grupo defende que o Brasil utilize o interesse internacional em minerais críticos para condicionar parcerias a compromissos de industrialização, transferência de tecnologia e formação de cadeias produtivas locais.
Essa perspectiva se alinha ao debate no Congresso sobre a política nacional de minerais críticos. O texto aprovado pela Câmara, atualmente em análise no Senado, amplia o papel do governo na definição de projetos prioritários e cria mecanismos para estimular a agregação de valor no Brasil.
A proposta garante ao governo maior capacidade de influenciar a entrada de capital estrangeiro e condicionar avanços em projetos estratégicos a compromissos de beneficiamento e industrialização no país. Além disso, prevê a criação de um conselho ligado ao governo federal para avaliar operações e contratos internacionais no setor.
A estratégia brasileira coincide com o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Cúpula do G7, onde defendeu que países detentores de minerais críticos participem das etapas de maior valor agregado da cadeia, através da industrialização e transferência de tecnologia.
A diplomacia brasileira considera a industrialização dos países detentores de minerais críticos como um eixo central de sua posição internacional sobre o tema. Contudo, há preocupações com a atuação de alguns representantes do setor mineral que buscam parcerias diretamente com governos estrangeiros sem coordenação com o Itamaraty, o que pode enfraquecer a posição de negociação do Brasil neste momento de crescente disputa global por terras raras e minerais críticos.
A preocupação no setor privado é que um excesso de intervenção estatal ou regras pouco claras possa afastar investidores, especialmente quando o Brasil tenta se posicionar como uma alternativa confiável à China.
