O novo EP traz cinco faixas inéditas que abordam luto, exaustão do corpo feminino e violência doméstica de forma direta, sem metáforas. A Banda dos Corações Partidos amplia seu repertório ao trocar o desamor por denúncia.
Duas décadas depois de transformar a dor de cotovelo em identidade artística, A Banda dos Corações Partidos estendeu o alcance de seu repertório com um novo trabalho. Lançado no ano em que a banda completa 20 anos de estrada, o EP Borrada traz cinco faixas inéditas e desloca parte do universo do desamor para temas mais ásperos, como o luto, a exaustão do corpo feminino e a violência doméstica, tratados de forma direta e sem metáforas.
Em Borrada, o grupo abandona parte do universo do desamor que marcou sua trajetória para mergulhar em territórios de colapso íntimo e tensão cotidiana. As cinco canções percorrem sentimentos difíceis de traduzir em palavras e recusam qualquer tentativa de suavizar as consequências desses processos emocionais. A melancolia amorosa que sempre esteve no centro da identidade da banda se amplia e se transforma em ferida aberta frente a realidades sociais mais amplas.
Pela primeira vez, a vocalista e atriz Diane Veloso assinou todas as letras, em parceria com o compositor e músico sergipano Alex Sant’Anna. Essa mudança no processo criativo acompanha uma mudança estética: o EP aproxima o indie brasileiro do spoken word e do melodrama teatral, com produção a cargo de Leo Airplane, tecladista da banda desde a formação original.
A mudança estética e temática ganha peso diante de um cenário nacional marcado pela persistência da violência de gênero. Com o Brasil registrando sucessivos recordes de feminicídios, o EP conecta experiências íntimas a uma realidade coletiva, transformando sofrimento em matéria de criação e colocando temas urgentes no centro do discurso musical da banda.
Ao longo da carreira, A Banda dos Corações Partidos construiu uma linguagem calcada no ressentimento afetivo, na dramaticidade e em uma interpretação teatral da tristeza. O desamor já havia sido explícito em lançamentos anteriores, como o EP Desamor (2017) e o álbum Canções de Ódio, Ressentimento e Abandono (2022). Em Borrada, esse repertório emocional se expande e adquire novas camadas, sem abandonar a intensidade que definiu a trajetória do grupo.
O EP marca tanto uma comemoração dos 20 anos de estrada quanto uma redefinição do olhar artístico da banda, que propõe enfrentar temas sociais urgentes por meio de uma sonoridade que mistura drama, introspecção e um traço performático que já é marca registrada do coletivo.
