Chatbots viraram confidente de crianças e adolescentes para falar de sentimentos e preocupações. Acesso 24 horas e respostas imediatas levam milhões a buscar orientação na IA em vez de recorrer a adultos.
A inteligência artificial (IA) já deixou de ser apenas uma ferramenta para pesquisas, estudos ou criação de imagens e textos. Entre crianças e adolescentes, chatbots vêm ocupando um espaço mais íntimo: o das conversas e dos pedidos de orientação sobre sentimentos, preocupações e problemas pessoais.
Em vez de procurar imediatamente pais, amigos ou outros adultos de confiança, alguns jovens estão recorrendo à IA quando precisam desabafar ou pedir orientação. A facilidade de acesso explica parte do fenômeno: o chatbot está disponível a qualquer hora, responde em poucos segundos e tende a não demonstrar surpresa ou julgamento diante do que lhe é contado.
Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), reunidos em dez países, mostram a dimensão dessa mudança de comportamento. Segundo o levantamento, crianças utilizam recursos de inteligência artificial em uma proporção mais de três vezes superior à observada entre adultos. Mais de 2 milhões delas já recorrem à tecnologia em busca de conselhos sobre questões pessoais que as preocupam.
A tendência também apareceu em pesquisa sobre saúde emocional: um estudo publicado na revista científica JAMA Pediatrics identificou que 19,2% dos jovens norte-americanos entre 12 e 21 anos já procuraram chatbots para obter conselhos ou algum tipo de ajuda em momentos de tristeza, nervosismo, irritação ou estresse. Esse percentual representa aproximadamente 8,2 milhões de jovens. Entre os que procuram a tecnologia para esse tipo de apoio, 63,3% não contam a ninguém que o estão fazendo.
“A tecnologia se tornou uma presença constante na vida dos jovens e, por estar disponível o tempo todo, acaba sendo procurada também para os momentos mais delicados. Não é o caso de tratar a IA como uma ameaça, mas de entender por que o jovem recorre a ela e garantir que saiba diferenciar uma ferramenta tecnológica de uma relação humana”, afirmou Marco Giroto, fundador da SuperGeeks.
No Brasil, a pesquisa da Arco Educação, feita com 936 estudantes do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio, mostrou que um em cada cinco participantes utiliza inteligência artificial quando se sente sozinho ou precisa conversar. Mais da metade dos estudantes entrevistados (52%) disse ter alguma ou muita dificuldade para fazer novas amizades, e 17% relataram sentir solidão frequentemente.
Para jovens envergonhados, com medo de críticas ou sem alguém disponível no momento, escrever para um chatbot pode parecer mais fácil do que iniciar uma conversa presencial. Ainda assim, essa facilidade exige atenção: respostas bem colocadas não garantem compreensão da situação nem que a orientação seja a mais adequada.
Chatbots geram respostas acolhedoras, organizadas e aparentemente seguras, mas trabalham a partir de modelos tecnológicos que podem errar, interpretar mal situações ou reforçar ideias já apresentadas pelo usuário. Algumas ferramentas também são projetadas para estimular a continuidade da interação. Além disso, empresas desenvolvem esses produtos com regras, critérios e objetivos próprios, o que reforça a necessidade de incluir no ensino digital noções sobre funcionamento dessas tecnologias.
Uma resposta que parece empática não equivale à escuta de um amigo, familiar, professor ou profissional preparado para compreender o contexto de uma criança ou adolescente. A tecnologia pode ajudar a organizar pensamentos ou a encontrar palavras para explicar sentimentos, mas não deveria se tornar a única fonte de apoio para problemas pessoais.
Proibir o uso da IA não é a única saída. A participação de pais e responsáveis pode ir além da fiscalização de apps e do controle do tempo de tela: conversar sobre como os jovens usam a IA, explicar que respostas podem estar erradas e demonstrar disponibilidade para ouvir assuntos difíceis são formas de proteção. Também é importante observar quando o chatbot começa a ocupar o lugar de relações humanas; se a criança prefere conversar exclusivamente com a IA, evita procurar pessoas próximas ou demonstra sofrimento persistente, é recomendável ampliar a rede de apoio.
“A inteligência artificial vai fazer cada vez mais parte da rotina das novas gerações, e não adianta ensiná-las a simplesmente evitar. É preciso prepará-las para utilizá-la com consciência, entendendo que a tecnologia pode ampliar possibilidades, mas não substitui vínculos, diálogo e a presença de pessoas”, concluiu Marco Giroto.
A questão, portanto, não é impedir que crianças e adolescentes conversem com a inteligência artificial, mas ajudá-los a compreender o lugar que ela deve ocupar: disponível 24 horas e capaz de responder imediatamente, um chatbot pode ser uma ferramenta útil, desde que não substitua o suporte humano necessário.
