Itabaiana · terça-feira · 13 de outubro de 2026
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As rotinas mudaram: agendas e telas substituem as brincadeiras livres. Pesquisas indicam perda de socialização, criatividade e autonomia quando falta espaço para as crianças.

Nas últimas décadas, era comum que crianças saíssem de casa após a escola e retornassem apenas ao anoitecer, sem um roteiro definido e sem a supervisão de adultos. Hoje em dia, essa cena se tornou rara nas grandes cidades, sendo substituída por agendas estruturadas, atividades supervisionadas e, cada vez mais, pelo uso de telas.

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Um número crescente de estudos em psicologia do desenvolvimento tem se dedicado a investigar essa mudança, buscando entender o que se perde em termos emocionais e cognitivos quando a brincadeira de rua desaparece da infância.

A ideia de medir essa transformação não é nova. Em 1971, o psicólogo ambiental Roger Hart pediu a crianças de uma pequena cidade americana que desenhassem mapas dos lugares onde podiam circular sozinhas, sem a supervisão de um adulto. Algumas crianças percorriam vários quilômetros e conheciam bem o entorno. Décadas depois, ao repetir o exercício, Hart percebeu que a área de circulação livre, agora chamada de home range pelos pesquisadores, havia diminuído significativamente, um padrão observado em diversos países.

Levantamentos mais recentes confirmam essa tendência: cada vez menos crianças têm permissão para ir sozinhas à escola, atravessar ruas movimentadas ou visitar amigos sem a constante supervisão de um adulto. Esse fenômeno tem atraído a atenção de pesquisadores que estudam o desenvolvimento infantil.

Para a psicologia do desenvolvimento, o valor da brincadeira de rua não está apenas no cenário, mas no tipo de exercício mental que ela proporciona. Ao negociar regras, decidir quem começa o jogo ou resolver imprevistos sem a intervenção de um adulto, as crianças praticam habilidades como negociação, tolerância à frustração e tomada de decisão.

Um estudo da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, reforçou essa ideia, indicando que a brincadeira deve pertencer às crianças, e não aos adultos que as observam. A evidência mais robusta sobre o tema vem de estudos longitudinais que acompanham crianças ao longo dos anos. Uma pesquisa da Universidade de Exeter, no Reino Unido, com mais de 4 mil crianças, encontrou uma associação entre a frequência de brincadeiras ao ar livre entre 2 e 4 anos e uma maior probabilidade de manutenção de um perfil de saúde mental estável até os 8 anos.

Outro levantamento, conduzido pela corte britânica Born in Bradford com 2.500 crianças, associou o tempo de brincadeiras ao ar livre a melhores habilidades sociais e emocionais na infância, sugerindo que os benefícios vão além do exercício físico. Esses achados alimentam um debate mais amplo entre pediatras e psicólogos sobre a hipótese de que a diminuição da brincadeira livre contribui para o aumento de sintomas de ansiedade e dificuldades de autorregulação emocional observados em crianças e adolescentes.

A chamada brincadeira de risco, onde as crianças testam limites físicos sob supervisão mínima, é considerada pedagógica. Especialistas acreditam que essa experiência está associada a ganhos em avaliação de perigo, superação do medo e maior confiança na própria capacidade de resolver problemas.

No entanto, a diferença central em relação a décadas passadas não é a presença do risco, mas a drástica redução da margem que famílias e escolas permitem para esse tipo de experiência. Além do tempo de tela, outros fatores como aumento do tráfego, desaparecimento de espaços públicos seguros e a cultura de supervisão têm empurrado as crianças para dentro de casa e para atividades dirigidas por adultos.

Os pesquisadores defendem que, embora a segurança seja essencial, é importante encontrar um equilíbrio entre proteger as crianças e permitir que desenvolvam autonomia. Para famílias e escolas, recomenda-se criar blocos de tempo livre sem atividades dirigidas, espaços onde as crianças possam negociar suas próprias regras e menos intervenção adulta nos conflitos.

Assim, a confiança se desenvolve não quando tudo está sob controle, mas quando as crianças aprendem a encontrar seu próprio caminho, tanto literal quanto metaforicamente.

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Jornalista da Itabaiana FM 93.1 — trazendo as notícias de Sergipe para você.

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