Relatório da OCDE aponta que o país está no topo em violência contra docentes. Casos vão de ameaças verbais a agressões físicas, como a professora Marta, ameaçada de morte em 2023.
A professora Marta não consegue esquecer uma das situações mais agressivas que viveu em sua carreira de 26 anos no magistério. Em março de 2023, ela foi ameaçada de morte pelo pai de um aluno do 1º ano do ensino fundamental. “Ele ligou na escola e falou que ‘ia matar aquela vagabunda'”, recorda a educadora de uma escola municipal na Zona Oeste de São Paulo, que preferiu manter seu nome em sigilo.
A ameaça surgiu após o pai do aluno expressar insatisfação com o desempenho escolar do filho, que apresentava dificuldades de adaptação ao novo ciclo de ensino. A professora ficou sabendo da ameaça através da coordenadora da escola enquanto já estava em seu segundo emprego. “Passei a noite na delegacia e me senti muito sozinha, não teve ninguém da gestão junto comigo”, lamenta.
Após o episódio, Marta decidiu não representar criminalmente contra o agressor e foi afastada da escola onde ocorreu o fato. Embora tenha conseguido completar o ano letivo em outra unidade, ela enfrentou graves problemas psicológicos devido à situação. “Fiquei com pânico de dormir”, relata.
Infelizmente, o caso de Marta não é isolado. Uma pesquisa do Centro do Professorado Paulista (CPP) com 1.144 professores revelou que 65% deles já sofreram algum tipo de agressão em ambiente escolar. A violência verbal é a mais comum, ocorrendo em 71% dos casos, seguida pela violência psicológica (58%), institucional (27%) e física (19%).
O Brasil lidera, segundo levantamento realizado em 2024 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o ranking de violência contra professores, com 47% deles relatando intimidações ou abusos verbais por alunos, enquanto a média global é de aproximadamente 18%.
Recentemente, o tema da violência contra educadores ganhou destaque após um incidente em São José dos Campos, onde a professora Michele Ramos registrou um boletim de ocorrência após alunos colocarem uma lâmina de vidro em seu copo de água durante a aula.
A psicóloga Renata Paparelli, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirma que os professores enfrentam diversas formas de violência, que podem ser categorizadas em três tipos: violência da escola, na escola e contra a escola. Essa situação tem gerado discussões sobre a necessidade de adequação das políticas públicas às realidades das instituições educacionais.
O Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es da Universidade Federal Fluminense (Onve-UFF) também tem monitorado o aumento da perseguição a professores, que se manifesta em censura, intimidações e assédios nas redes sociais. Um estudo do grupo com mais de 3 mil educadores aponta que 61% dos professores da educação básica e 55% do ensino superior já enfrentaram esse tipo de violência.
Casos de agressões físicas também têm sido registrados, como o de Pedro, um professor de 40 anos que foi agredido por um aluno com autismo em 2024. Essa realidade alarmante destaca a urgência de ações efetivas para garantir a segurança dos educadores nas escolas.
