O fenômeno do El Niño, previsto para este ano, pode ser um dos eventos climáticos mais intensos em mais de uma década. No entanto, o impacto no setor agrícola da América Latina, especialmente no Brasil e na Argentina, tende a resultar em ganhos de produtividade e superoferta. Essa condição, por outro lado, não significa necessariamente que os produtores terão maiores lucros. Essa é a conclusão de um estudo publicado pela Allianz Trade.
Segundo a pesquisa, dados de episódios anteriores de El Niño mostram que as safras brasileiras frequentemente registraram desvios positivos em relação à média dos últimos cinco anos. Por exemplo, a produção de soja chegou a superar a média histórica em até 4% em 2015, enquanto o café arábica teve um aumento de até 5% acima da tendência.
Embora o clima mais úmido beneficie as lavouras de grãos e oleaginosas no Sul do continente, o estudo alerta que o aumento significativo da oferta pode pressionar os preços de venda para baixo. Além disso, a superoferta pode preencher rapidamente a capacidade de estocagem, o que resulta em um aumento drástico nos custos de armazenamento para produtores e tradings.
A pesquisa ainda salienta que os efeitos do El Niño no Brasil são assimétricos. Enquanto as regiões agrícolas do Sul tendem a ser favorecidas pela umidade, o Norte e a bacia amazônica enfrentam riscos de seca. Essa condição de seca no Norte coloca o Brasil, junto com Colômbia e Peru, entre os países da região que apresentam vulnerabilidades inflacionárias específicas, o que pode impactar os preços dos alimentos, a logística e a geração de energia elétrica.
No cenário global, os autores do estudo acreditam que a melhora na oferta de soja e milho na América Latina deve atuar como um contrapeso natural às pressões inflacionárias globais de alimentos. Isso se difere do que ocorre no Leste Asiático e na África Ocidental, que enfrentam riscos severos de seca em culturas como cacau, óleo de palma e arroz.
Para o setor corporativo, a Allianz Trade aponta que os exportadores agrícolas brasileiros podem desfrutar de condições operacionais e de crédito mais robustas devido ao aumento no volume. No entanto, o estresse financeiro pode aumentar para processadores de alimentos e intermediários que estão expostos à volatilidade e à queda dos preços das commodities agrícolas no mercado internacional.
