Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificaram que doses reduzidas do antibiótico minociclina podem aliviar ataques de pânico e sintomas de ansiedade. Os resultados foram publicados em 4 de maio de 2026 na revista científica Translational Psychiatry.
O grupo analisou 49 voluntários diagnosticados com transtorno do pânico. Todos inalaram ar enriquecido com 35% de dióxido de carbono (CO2) no início do estudo e, novamente, depois de sete dias de tratamento com clonazepam ou minociclina. Psiquiatras treinados avaliaram a intensidade da ansiedade em cada etapa. Tanto o fármaco tradicional quanto o antibiótico reduziram os sintomas, mas a minociclina apresentou menor risco de efeitos colaterais.
Alterações inflamatórias no sangue
Os testes mostraram queda nos níveis das citocinas pró-inflamatórias IL-2sRα, IL-6 e TNFα, além de aumento de IL-10, substância associada à resposta anti-inflamatória. Segundo os autores, o efeito sugere que a minociclina age controlando processos inflamatórios ligados ao transtorno, diferente do clonazepam, que regula receptores de GABA no cérebro.
Ensaios em camundongos reforçam dados
Em experimentos paralelos, camundongos foram expostos a ar com 20% de CO2 após 14 dias de tratamento com o antibiótico. Houve diminuição dos saltos — comportamento relacionado ao pânico — e redução da densidade de micróglias no locus coeruleus, região cerebral sensível ao CO2. As análises ocorreram seis horas após a exposição, intervalo definido como ideal para futuras investigações.
Dose abaixo da usada contra infecções
As quantidades de minociclina aplicadas foram inferiores às empregadas no combate a bactérias, o que, de acordo com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), reduz o risco de desenvolvimento de resistência antimicrobiana. Por já ser considerada segura para uso humano, a droga pode avançar diretamente para a fase 2 de ensaios clínicos, com mais participantes e avaliação de diferentes dosagens.
Beatriz de Oliveira, primeira autora da pesquisa, destaca que cerca de 50% dos pacientes não respondem ao clonazepam. Nesse cenário, a minociclina surge como alternativa para casos refratários. O estudo integra o projeto “Fisiopatologia da sensibilidade ao CO2: papel do locus coeruleus”, coordenado pela professora Luciane Gargaglioni, da FCAV-Unesp, e financiado pela Fapesp.
