São Paulo, 10 de abril – Dois anos depois da dissolução do black midi, o multi-instrumentista britânico Cameron Picton apresenta hoje o álbum de estreia de seu novo projeto, My New Band Believe. Gravado em 11 estúdios de Londres com apoio de um septeto de cordas, o disco homônimo chega cercado de números precisos: das 177 referências cronometradas às 53 repetições da palavra “ass” e 27 de “night”, todos listados na faixa “Numerology”.
Em entrevista ao site Tenho Mais Discos Que Amigos!, Picton contou que a obsessão estatística surgiu como forma de ligar conceitos aparentemente desconexos. “Você pode inventar números para justificar qualquer coisa”, comentou, reforçando que os dados funcionam como fio condutor entre single e álbum.
Regras estabelecidas (e quebradas)
O músico admitiu ter criado duas restrições logo no início da produção: proibir instrumentos elétricos e evitar músicos que já tivessem tocado em discos do black midi. Ambas, porém, caíram por terra na primeira faixa, “Target Practice”. Segundo Picton, as normas serviam apenas como ponto de partida para enfatizar o caráter “basicamente acústico” do trabalho e abrir espaço a colaboradores inéditos.
Tensão do cotidiano
Canções como “Love History” mesclam cenas domésticas – escolher entre batata ou arroz – com imagens de horror, recurso que, de acordo com Picton, amplia o impacto narrativo. “A perda é sentida nas pequenas coisas”, afirmou, defendendo que detalhes cotidianos podem pesar tanto quanto grandes tragédias.
Equipe multigeracional
Entre os convidados, a idade varia de 21 a 35 anos, com exceção do baterista Steve Noble, 66. Para o idealizador do projeto, trabalhar com diferentes faixas etárias trouxe “uma das experiências mais recompensadoras”, graças ao equilíbrio entre leveza e foco de Noble no estúdio.
Londres como personagem
A capital inglesa permeia a obra, inclusive na arte de capa, fotografada no Horse Hospital, prédio iniciado 200 anos antes do nascimento de Alex MacKenzie, responsável pela imagem. Picton reconhece uma “assombração geográfica” de Londres no disco, classificando-o como um recorte de um universo musical muito mais amplo.
Futuro em aberto
Seguindo modelo semelhante ao do King Crimson, o My New Band Believe foi planejado para funcionar em ciclos anuais, ao fim dos quais o grupo decide se continua ou se se reinventa. Questionado sobre a pressão de um segundo álbum, Picton respondeu que prefere manter todas as possibilidades em aberto.
Para quem pretende tatuar algum dos 177 números citados ao longo do registro, o artista brinca: “Escolha o que estiver no primeiro lugar das paradas”.
No acervo pessoal, ele diz ter entre 500 e 600 discos – “com certeza mais do que amigos” – e elege obras de Judee Sill, Bert Jansch & John Renbourn, Augustus Pablo, Charles Mingus e Novos Baianos como fundamentais em sua trajetória.
Com informações de Tenho Mais Discos Que Amigos!
